Sabes aquela sensação em que olhas para o teu joelho esfolado que magoaste ontem quando tentavas andar de bicicleta sem rodinhas sem ninguém saber porque não aguentas que saibam que falhaste, e ficas obcecado com a crosta que começa a proteger a tua ferida? A crosta já quase que tapa a ferida toda. Sentas-te no sofa a ver os desenhos animados, vais ao supermercado com a tua mãe, vais às aulas de ginástica e fazes de tudo para resistires à vontade de a arrancares. Tentas distrair-te com as tuas coisas preferidas mas a ideia volta-te sempre à cabeça.
Há uma altura que ficas embrigado na ideia de que o teu joelho já não doi, a crosta já fez efeito. E ela apanha-te sozinho, a crosta, nesse transe de estares curado. É nesse ponto, nesse milésimo de segundo que deixas de acreditar no que queres e convences-te que já estás sarado e ignoras a voz na tua cabeça – que é a voz da tua mãe – a enumerar as consequências por pontos.
Cedes, arrancas a crosta com aquele sabor de conquista na boca, de missão cumprida, de clandestinidade, e de estares descoberto num campo minado. Cedes só para descobrires que por baixo daquela mancha feia, dura e escura que te estava a proteger - a proteger o teu joelho - só para descobrires que a ferida que fizeste anteontem ainda está em carne viva a latejar. Sabes essa sensação?

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