Eu já tinha decidido que aquela noite seria para nos esquecermos que tinha existido. Só precisávamos de uma fuga e de uma noite que nunca nos lembraríamos. Saí do trabalho à pressa para dar um toque na maquilhagem antes de os encontrar. Ainda dei boleia ao Filipe que veio do Brasil e estava em “couchsurfing” em casa da Madalena. Demorámo-nos ainda à espera do Tomás na loja da Sara – eu sei, são demasiados nomes, mas todos eles se esbateram com o circular do relógio. Não me lembro bem do seguimento dos acontecimentos, mas ainda fizemos uma última paragem para apanhar o Ricardo e o “abraços” do irmão dele.
Eu conhecia os “abraços”, mas nunca os tinha ido buscar. Foi tudo muito sóbrio, ofereceu-nos cerveja que delicadamente recusámos. As meninas em fila sentadas no sofá a cruzar a pernas a dar o ar sério que o ritual exigia – não sabíamos, queríamos apenas dar o ar de entendidas, conhecedoras da gíria e do tratamento, natas no assunto.
Despedimo-nos já meio atabalhoadamente, para depressa chegar a casa da Madalena. Já tínhamos perdido a hora de todos os supermercados abertos, passámos nos indianos a comprar vinho, perdemo-nos nos trocos e na língua deles meio raquítica e agressiva e subimos as escadas, os seis, até ao primeiro andar da rua de Abril.
Já conhecia de cor as escadas e o som da porta da entrada a abrir. O cheiro também era familiar e aquele ar sempre frio. Pousei a mala na bancada da cozinha logo que se entra e sentei-me no sofá à frente. Cozinha e sala, casa de banho à esquerda. Quarto. Vermelha, preta e branca, com um quadro de ardósia a indicar os horários da Madalena e do João. Por incrível que pareça, arrumada. Pusemos uma música a tocar enquanto a Catarina encomendava as pizzas e o Tomás arrumava as mortalhas no balcão da cozinha. O Ricardo abriu uma garrafa de vinho branco, serviu quem lhe deu copo e sentou-se ao meu lado no L do sofá. Já todos tínhamos na cabeça que aquele noite era para nos esquecermos da vida e de nós - mas sobretudos dos outros.
Deixei o telemóvel ao pé da televisão e rapidamente se fez uma fila de 6 – não queríamos ser interrompidos. Desfizemos os planos de ir ter ao Chinês Clandestino com o resto do grupo e descomprimimos os pés descalços no assoalhado. Estavamos em casa.
Bebi um copo e a seguir outro, o terceiro enquanto partilhávamos “abraços”. A Catarina alternava entre o chão e o sofá com a Sara ao lado, o Filipe parecia alheado porque não partilhou nada connosco, o Tomás dava-lhe conversa a mostrar umas músicas Bossa Nova. O Ricardo alternava entre o meu lado esquerdo e o meu lado direito, era o que me parecia. Eu fiquei muito leve e sorria muito, bebia mais do que abraçava, nessa altura já tinha mudado para o vinho tinto e o Ricardo falava nos meus lábios roxos. Abrimos mais uma garrafa com as pizzas, o Ricardo pousava o braço dele na minha perna enquanto eu estava sentada à chinês no sofá de frente para ele, a equilibrar o copo na mão direita e a observá-lo com o olho esquerdo enquanto o direito se fechava.  Estava tudo muito turvo, não sei se dos abraços, se das minhas lentes a colar aos olhos se do ambiente que decidiu pactuar connosco nesta ilegalidade.
O Ricardo tropeçava nas ideias e tinha um discurso pouco claro e nada elucidativo, eu ria da atrapalhação e da história que estávamos a criar. Estava mais silêncio porque todos comiam as pizzas no balcão da cozinha, a atropelarem-se na fome. O Ricardo continuava a olhar os meus olhos turvos e o braço continuava na minha perna, onde pus a mão. Estamos a ser demasiado óbvios. Achas? Não sei a passagem do tempo, quantos minutos tinham passado desde que tínhamos chegado, teriam sido horas? Parecia uma eternidade e o Ricardo não largava os meus olhos.
A música era dançavel e a Catarina trocava olhares sobre nós com a Sara, o Tomás já tinha percebido mas continuava a dar-nos abraços. Era uma ilegalidade requintada e estávamos ali só a existir, tudo me parecia um pouco ridículo e extremamente divertido. Nenhum dos dois dava um passo que podia ser em falso. Já tínhamos um cadastro pouco claro e não nos atrevíamos a repetir.

Foi quando estava a retocar o baton na casa de banho que o Ricardo bateu à porta. Disse que não ao mesmo tempo que me declarava vencida. Durante toda a noite ouvi a pulseira que me ofereceste com a tua inicial a tilintar no meu braço direito.

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