Não há quem me conheça melhor do que eles. Somos todos iguais e é por isso que sabemos os medos, as manhas e os risos fáceis de cada um. Não é como se fossemos peças do mesmo puzzle nem partes contrárias da mesma moeda. É mais do que isso, é como se nos tivéssemos desenhado uns aos outros, em que cada traço nosso definimos também para o outro. Não gostamos que os outros interfiram naquilo que é nosso, seja o café, a madrugada pensativa, o jantar atabalhoado ou o cinema repentino. Durante os oito anos em que nos desenhámos constantemente tivemos duas viagens ao estrangeiro, vários fins-de-semana irrepetíveis, alguns amigos que se desfizeram e levaram com eles os nossos risos desprendidos e alguns segredos semi revelados, romances que acabaram antes de começar e amores eternos que nunca voltarão a acontecer. Primeiros amores, desilusões, quedas e afastamentos sem razão, cafés de discussão, jantares para pôr os pontos nos i’s, passeios de carro sem destino a cantar as letras das músicas, encontros onde só houve silêncio, telefonemas só para sabermos que continuamos ali, duas mortes e um susto valente. Juntamo-nos quase sempre sem um plano porque nos ensinaram que os planos se desfazem e aprendemos a aceitar que sabe melhor quando não sabemos. Gostamos quando ninguém nos entende e detestamos conhecer-nos uns aos outros tão bem.  Não somos um grupo nem somos uma família, somos almas reencarnadas vida após vida. Não gostamos de marés nem de contra-correntes, por isso dizemos com uma leve arrogância na ponta da língua que ninguém nos entende - também não o queremos, quanto mais inacessiveis formos mais a nós pertencemos. Mais do que tudo e acima de qualquer coisa, o que mais nos mantém assim é o medo. O medo de nos perdermos, a nós próprios e uns aos outros. O medo de nunca nos entenderem como eles me entendem, medo de não voltar a haver isto, medo que os planos que fazemos não se concretizem, medo de nos deixarmos levar pela vida e que ela nos obrigue a fazer planos que não nos incluam a todos.

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