Estão sempre a chamar-nos tristes e cansados, pessimistas e sem futuro. Que não há trabalho, não há dinheiro. Que não há, não há, não há. Que não vamos atrás, que nos deixamos ir indo por aqui e por ali, que somos pacíficos, ocos, nas marés dos mares que amamos. A noite ainda empurrava o sol no horizonte quando os pessimistas tristes e cansados rumavam à cidade que os acolhe todos os dias. Iam de chinelo no pé com a pele a escaldar do sol da praia da tarde. Levavam nos olhos sem futuro o brilho da tradição que nos mantém em sentido no país que nos vê dar os erros que tanto queremos. Levavam na mão a bebida que nunca deixam. Não falo do cheiro das sardinhas nem da cerveja entornada nas roupas, do fumo nos cabelos nem do cheiro das noite de verão que só têm este cheiro aqui. Não quero falar de Alfama que ganhou, da Marvila que ainda há pouco entrou na competição ou na história que tem a Mouraria. Lisboa é vampiresca e os pessimistas sem dinheiro desaparecem quando o sol se empurra para longe. Falo das pessoas. Não há pé que não seja pisado, bebida que não seja entornada, garrafa que não se parta. Beijo que não se dê, mulher que não se procure e homem que não se encontre. À noite todos os gatos são pardos e não há desconhecidos na cidade que não nos quer deixar partir. Não há música que não se goste, boleia que não se dê. A puta sorri desdentada, o velho abraça com o sabor do vinho, a vizinha abre a porta de casa e deixa ver as marchas na televisão por cima do frigorifico. Não há ruas vazias, não há pessimistas, não há cansaço nem trabalho nem dinheiro. Acima de tudo, e ainda bem, não há futuro.

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