O carro rangia a pedir a quinta, eu só queria chegar depressa a tua casa, não fosses tu achar que me tinha acobardado entre o Rato e a Infante Santo. Olhava o telefone entre segundos, com uma mão no volante e a outra no botão para perceber se não tinhas enviado uma mensagem a dizer que já não te apetecia.

Estacionei na rua do Arco qualquer coisa a pensar se não me teria enganado. Ou se eras tu que me tinhas enviado a morada errada. A rua era antiga se não mesmo velha. Havia muita gente no passeio estreito apesar da hora tardia. Eram os homens no cafés a desmontar o jogo da noite e o cheiro a cigarro barato. Perguntaste-me de já estava à porta e eu respondi-te que achava que sim. Estava no cento e sessenta mas pensei que seria a porta de um prédio e não uma porta de uma única casa. Esperei, a medo. Ouvi a porta abrir e encontrei-te a espreitar. Sorriste, enfim. Pediste para entrar e mostraste-me as escadas ingremíssimas até à sala de estar, num hall minúsculo do qual fazia parte a cozinha. A tua casa não tem ponta por onde se pegue, disse-te. Riste-te, perguntaste se bebia. Não bebo, devias lembrar-te, suja-me os dentes de roxo e deixa-me a cheirar a amargo.

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