Ninguém quer saber. Desfez-se a cama a arejar o colchão. Abriram-se as portas dos armários para empacotar as roupas. Ficaram os carros e os livros e os quadros. As fotografias levei-as eu para o meu quarto e espalhei-as pelo móvel. Choveu torrencialmente e a minha cabeça latejava de dor. Ninguém quer saber que tenhamos desfeito a cama um mês depois e mesmo assim mudou tudo. Ninguém apareceu. Ninguém disse nada e o dia correu como sempre. Ninguém quis saber que te desfizemos a cama e a deixamos aberta, esventrada sem lençóis nem cobertores ou colcha. Ficou o colchão vazio e mesmo assim ninguém fez nada. Quando me leram as cartas disseram que eu tinha muita sorte. Tem muita sorte. E todas as coisas acontecem por uma razão e não te quiseram continuar a deixar que fosses a minha razão. O que é que se faz agora? Quando visto preto sinto que te estou a perder. Quando me rio muito apetece-me chorar porque por alguma razão que tem de ser me lembro de ti. Ontem a mãe fez um bolo e ficou uma porcaria. Não cresceu ou não sei. Passou a tarde inteira na cozinha e a mim só me apetecia chorar porque ela ficou a tarde toda na cozinha e o bolo não prestava. Não sei fazer estas coisas do luto porque toda a gente telefona cá para casa de voz encoberta a perguntar como estou. Estou bem. Como se tu lhes tivesses morrido a elas. Foi a mim. É assim que vês a quem as pessoas morreram. Não queremos que nos telefonem de voz baixinha a perguntar como temos andado a lembrar-nos que estamos de luto. Sabemo-lo a toda a hora. Quando passo no teu quarto e tem uma cama com um colchão vazio ou um prato a menos na mesa ou o teu perfume no corpo de outra pessoa ou nos passeios de família onde já não estás. Não quero que me telefonem para casa repetidamente a darem-me a notícia de que morreste. Não me perguntem como estou, como tenho andado e que tenho de ser forte e “aguentar o barco”. Não quero parecer insensível. Partilho a vossa dor dele nos ter morrido, mas não preciso que me lembrem que a vida acabou. Até porque quando morremos a dormir não conta e até prova em contrário somos eternos.

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