Fui feliz até aos 23 anos e 189 dias. 2013, segunda-feira de manhã. Saímos a correr logo que recebemos o telefonema. Tinha o verniz das unhas a secar e ficou cheio de marcas da roupa que vesti à pressa. Corremos para o carro e demorámo-nos no trânsito porque o medo de chegar era maior. Subimos os degraus a contar a respiração. Fiquei à espera nos bancos desconfortáveis da sala de espera a medir os espaços. A mãe entrou segura, já sabes como é. Saiu de olhos vermelhos e eu transbordei as lágrimas que tinha em suspenso nos olhos porque já antevia. Há seis dias que esperávamos o pior. Ou melhor ou o que fosse. Há seis dias que te visitávamos a horas certas. Uma hora ao almoço, uma hora ao final da tarde. Uma pessoa de cada vez. Desinfectar as mãos antes de entrar e depois de sair. Seis dias onde não há alterações, está tudo na mesma, crítico mas estável, preparem-se para o pior, não vamos pensar já o pior, está a ser observado, ainda não podem entrar. Ao terceiro dia passamos a poder entrar os três ao mesmo tempo e soubemos que isso não era bom. Os pais e eu. Levavam-nos quase secretamente para não chamar a atenção dos doentes dos outros quartos. Fechavam-nos a cortina e ficávamos ali num mundo só nosso. Nós os quatro. Cada um com uma mão e outro com a mão no coração. Tudo para nos sentires ali. Ouvias? Disseram-nos que não sabiam mas que podíamos tentar. Primeiro disse-te para não teres medo. Não tenhas medo. E quem o tinha era eu. Estava a doer-te? Disse para não teres medo e ires para onde quer que fosses. Ninguém sabia como seria se ficasses. E todos os dias era pior. No quinto dia tinhas os olhos abertos e eu procurava que me visses neles mas eles não me seguiam. Ria-me, brincava como fazias sempre mas nada. Vias-me? Parecia que não nos reconhecias. Depois choraste, uma lágrima só. Doeu-nos porque nunca choras. Era dor? Eras tu triste por te estares a despedir? Sabias isso tudo? Já não te disse para não teres medo, disse que te queríamos em casa de volta. Faltava-nos o barulho e as rotinas, faltavas tu, falta tudo. Ao sexto dia chamaram-nos e corremos. Largámos tudo mas quando chegamos já não estavas. Onde é que foste sem nós? Não sei como foi a seguir, foi muito rápido e muito estranho. Para sempre é muito tempo e eu espero que exista outra vida para poder estar contigo, falar contigo finalmente, saber tudo o que pensavas nessa tua cabeça de olhos atentos. Disse que não queria mais ver-te porque já não eras tu, já tinhas ido para onde não sabemos. Mas fui, vi-te mais uma vez, a última nesta vida que é a única que temos achamos nós. Branco e frio e pequeno, imóvel, inofensivo e a partir sozinho. Fecharam-te numa caixa e nunca mais te vimos. Dói todos os dias e nunca pára de doer.

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