Às vezes dói pensar-te porque me dói lembrar-nos. Às vezes consigo encobrir-te e pensar noutra coisa. No que fazer para o jantar ou no que vestir amanhã. Mas é quando me apareces sem dizer que dói mais. Quando estou a conduzir e me lembro que deixavas sempre a mão nas mudanças para eu te tocar. E de quando bates os dedos no volante ao ritmo da música e de como me pegaste essa mania. Ou do dia em que descobrimos que gostamos de ter músicas só para conduzir. E do teu sorriso. Com a janela aberta a baralhar-nos o cabelo nas gargalhadas e no som do vento que deixamos para trás. De tudo, é disso que tenho mais saudades. Deixar tudo para trás para estar contigo. O problema de deixar tudo para trás é que se torna um hábito. É uma nódoa negra, sangue pisado dentro da alma que vai coagular e entupir-nos as entranhas até ao coração e não deixa passar mais nada. Nunca mais vi os teus olhos porque eventualmente os deixei para trás. Ainda os consigo ver quando fecho os meus. E os pelos dos meus braços arrepiam.se porque ainda sinto a tua respiração quando adormecias comigo. Já que não me podes dar mais nada, deixa-me ao menos sonhar contigo.

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