Ao João, que me traiu


Tem olhos castanhos, cabelo muito curtinho, talvez alourado e cheira sempre bem. A fresco. Tem uma pele limpa e suave como a de um bebé, aveludada e macia. Não é muito alto, nem muito baixo, tem poucos centímetros a mais que eu. Sei isto porque enquanto estavas a meu lado quando fomos tomar café naquela noite descortinei a tua altura que medi pelo meu ombro, não sei se por já te querer compatível, se apenas o hábito de me achar pequena. Tem uns dedos esguios e compridos, mãos grandes, perfeitas. Que cabem nas minhas e que sabem a paz quando passeiam pelo meu pescoço e seguem a linha do meu ombro até à ponta dos meus dedos das mãos e pousam a repousar nas minhas ancas. De ti, sei pouco mais. Não o conheço, não sei quem é, não lhe pertenço na memória, nem lhe descobri o passado. Não sei quem já o magoou, ou quem ele já magoou. Quem amou, a quem mentiu, se já traiu. Sei o que quanto basta para imaginar um possível e hipotético – ou não – futuro a dois. Nós os dois, como estamos. Tenho as dúvidas serenas e as certezas adiadas sem impaciência. Não sei se é a maturidade, se o sinal divino de que não somos feitos um para o outro. Gosto de o ter a meu lado e sentir a sua respiração compassada junto da minha, tentar alinhar-me, entrelaçar os dedos das mãos e os braços, e enrolar-me no seu corpo, tentar chegar à sua alma e ser um único ser que ocupa o mesmo espaço. Não sei se é das feridas abertas que teimam em não sarar, se da idade que embora pouca já não deixa amar inconsequentemente. Se das circunstâncias, se das pessoas, se de ti. Gostava de lhe pedir que ficasse comigo. Mais um pouco, que se sentasse, puxasse uma cadeira confortável e me contasse a sua vida como uma história, escondendo as partes insignificantes e dando ênfase às interessantes, com intriga, amor e paixão. Que se desse a conhecer, a mim. Gosto da maneira como te preocupas e de como te mostras algo possessivo, também eu quero, não que me pertenças, mas que te dês só a mim da forma como queremos dar-nos, e criar uma história só nossa que, quem sabe, um dia contes mais tarde, afastando os maus momentos que a memória se lembra de esquecer, e aprofundar os bons com aquela pontada de saudade que às vezes se sente no coração e se demonstra no sorriso tímido que brota involuntariamente no meio do nosso olhar que vagueia pelo passado. Dele sei pouco, se não mesmo nada. Se calhar é isso que me desperta a curiosidade, ir-te conhecendo aos poucos, descobrir-te com as minhas mãos abertas, onde me podes ler a sina, o futuro ou o passado, como souberes. Dar-te tudo de mim, como um livro. Guardo um pouco de mistério para o início, como se faz sempre no jogo, para te cativar, para que fiques. Depois quero dar-lhe tudo, o corpo, a mente, a alma. Quero poder ter com ele o que nunca consegui dar antes, a complementaridade do número místico, o terceiro, do prazer do corpo, da admiração da mente e a pacificidade da alma. Se calhar é só isso, e se calhar isto é mais que antes, que embora não seja uma paixão arrebatadora e assolada de lágrimas de amor, é uma amizade profunda de uma paixão mais divina que profana, mais pura que vulgar. Talvez esta seja a forma mais bonita de conhecer alguém, dar-lhe de mim e esperar que dela venha a reciprocidade. Talvez o não te conhecer seja uma coisa boa, talvez isto não ser uma coisa mágica seja algo de positivo, já que o problema das coisas mágicas é que um dia descobrimos que não passam de truques de ilusionismo. 

2009

1 comentário:

  1. Fiquei confuso se esse João existe ou não!
    Traiu-te por ainda não existir na tua vida!

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