Passados tantos anos a escrever sobre estrelas continuo sem saber ler as constelações. Acho que é daquelas coisas que ficarão para sempre pendentes e das quais nos arrependemos no fim. Noutra vida espero ter mais persistência na leitura dos céus. Por exemplo, o teu. Será sempre uma incógnita. Os teus olhos sempre demasiados escuros e o teu sorriso muito aberto, que segredos são esses? Não gosto dos teus silêncios, por isso sempre nos demos melhor quando vamos dançar. Somos tu, eu e a pista de dança e uma música que nos cala as perguntas. Porque ficas? Porque vais? Para onde olhas? O que queres de mim? Para onde vais querer ir comigo? Achas que algum dia seremos tão felizes como no dia em que nos conhecemos?
Lembras-te? Disseste que fui um bálsamo, eu explodia de certeza que pertencíamos ao mesmo pó de estrela. Aquele pó mágico de que são feitas as almas que se pertencem. Há um escritor que escreveu que tu sabes quando uma história termina quando vês poeira a assentar. Será que o nosso pó de estrelas era apenas o fim de uma história?
Aos que ficam. Aos que ficam comigo. Não é difícil perceber a diferença: os que ficam não me pertencem. Às vezes temos de começar para saber que só recomeçando temos caminho novo. Aos que ficam desejo sorte. Aos que ficam comigo, que me tragam a segurança do que conheço, a destreza fácil do que já sei ser bom, do que já conheço fazendo feliz e a confiança para continuar começando em todo o lado que me der terra para trilhar. Vou crescer. E é por isso que os porquês doem – obrigam-nos a crescer nas respostas que temos de dar a nós próprios. Aos que ficam comigo, espero-vos comigo. Vou crescer!
Estava um dia cheio de sol, mas daqueles amenos, que nos fazem querer fechar os olhos de cara virada para o sol e sentir a pele a queimar lentamente. Eram três da tarde quando ela tocou à porta para que ele descesse. Foram de mota até ao jardim da Estrela, ela fez questão de se fazer de forte e não dizer que as motas sempre lhe deram medo. Sentou-se e apertou-o contra si esperando que ele achasse que era apenas por o querer perto. Fizeram o caminho a sorrir e a contar histórias nos semáforos enquanto ela segurava ambas as mãos transpiradas de encontro à camisola dele.
Dizem que esta é a melhor fase, aquela que não tem nome nem tem de ter. Mas para ela é uma bomba atómica em contagem decrescente até explodir. Não sabe se não ter paz significa que não lhe é destinado, se ter sempre o coração descompassado é uma paixão avassaladora ou um samba que lhe vai tirar o chão. Não consegue sossegar a cabeça porque não sabe se tem medo de perder estar a viver um sonho que nunca lhe pertencerá – como naqueles sonhos muitos reais em que acordamos a querer voltar a adormecer e em que o dia tem sempre uma nostalgia do que se perdeu.
Ele é o oposto de todos os passados que já teve – é meigo e de riso fácil, é leve – gosta dos mesmos livros e partilham o mesmo escritor preferido. Nunca saberá se partilham passados e forma de reagir parecidas porque esta história não vai prosseguir. Ela gostava de como ele lhe procurava a mão e de como caminhavam lado a lado a partir daí, a procurar ritmar os passos e de ombros a bater, enquanto ela escondia o sorriso e ele lhe procurava o canto da boca. Ela nunca saberá o que os tornou incompatíveis. Se o facto de querer esconder sempre as fragilidades ou de não gostar tanto de filmes de violência como ele. Se o facto de terem tanto em comum, como gostarem de ananás na pizza, lerem Saramago ou não deixarem a manteiga fora do frigorifico. 
Nesse dia ele levou uma manta gigante que estendeu na relva. Levou morangos e espumante porque disse que sabia que ela gostava de piqueniques. E pôs a tocar uma música alegre enquanto se deitaram no chão com o sol a queimar a pele enquanto se deixavam levar, sempre de mãos dadas, num entorpecimento entre o som da música e o chilrear dos pássaros que esporadicamente pousavam nos ramos mais altos das árvores que lhes traziam sombra quando havia brisa.
Não havia forma de prever que o destino não lhes pertencia porque ali e até ao universo dir-se-ia que haviam feito parte da mesma estrela, estilhaçada há milhões de anos-luz e reencarnada neste século e planeta, no mesmo país e cidade, acima de tudo no mesmo tempo, para os fazer ver que tudo tem o seu encontro.
Se calhar foi mesmo o tempo que não era o certo, é difícil acertar nestas coisas e fazer com que o passado e futuro e toda a vida se encaixe na perfeição na vida das outras pessoas – na visão dela, ele foi um bálsamo. Ainda hoje o recorda como aquele cheiro de mar e sal, sol e creme protector que nos fica na memória e nos lembra as melhores férias de verão, ele foi as suas férias predilectas, de sonhos e despreocupação, de felicidade pura. 
Dizem que que nos dão o que estamos preparados para receber, às vezes ela acha que tem dificuldade em perceber para o que está preparada por os sinais serem tão díspares, uma mistura entre ser independente e querer alguém que cuide um bocadinho dela.
Imaginem-no com as mãos cheias de cervejas pelo bairro alto, com aquele seu riso imprevisível e os olhos cheios de curiosidade, uma camisola colorida e os óculos escuros pendurados no pescoço, de passo decidido a esconder as inseguranças. Moreno, não muito alto nem muito baixo, alegre, daquelas pessoas que se quer perto. É ele. E eu lamento ter sido a mulher errada para o que ele procurava, seja o que for que ele precisasse naquele tempo. 
É tudo uma questão de perspectiva – o último ponto pelo qual devíamos guiar as nossas dúvidas deveria ser este. De que no fim é algo intrínseco a cada um de nós e depende das tatuagens que nos deixaram por baixo da pele. Como é que nos habituamos tão depressa? E como é possível desenlaçarmo-nos tão facilmente como uma pedra a barrar um rio ou um precipício que já não tem chão.
Há sempre muitos pontos a medir nesta fase: deixar ir, ser a pessoa maior, deixar criar o espaço sem perder o espaço que ocupávamos quando eramos só nós. Ao mesmo tempo lembrar como foi deixar-te dormir na minha cama, respirar no meu pescoço, encontrar uma série para que pudéssemos adormecer os dois livres de culpa às nove da noite de quinta feira. Lembras-te quando jantámos na minha marquise e dissemos que estávamos a jantar fora? Encomendámos pizza que comemos nos guardanapos, mas demos um toque romântico com morangos e chocolate. Naquelas quatro paredes onde jantámos fora criámos um universo novo onde fizemos pela primeira vez perguntas às quais tínhamos medo das respostas. Lembras-te? Como se esquece isso e tornarmo-nos as pessoas maiores, mais sãs, mais completas, como se em tão pouco tempo não pudéssemos sentir falta, não pudéssemos ter criado expectativas. Por mais em terra que queiramos os pés, por mais cabeça que queiramos que tenha o coração, acho que sonhei em ti todas as expectativas que guardei cativas metade da minha vida. Não te sei explicar por que é que vi em ti tantos sonhos, potencial em bruto para uma galáxia a explodir de estrelas e planetas e claro, buracos negros, estilhaços em direcções opostas e fogo e toda a superfície lunar encoberta. 
A conclusão é que tem tudo a ver com a perspectiva. Mais longe ou mais perto, nunca sabemos em que perspectiva vamos encontrar o outro, não sabemos se vão alinhar-se, coincidir, olhar o mesmo céu. Ou se por outro lado estamos em hemisférios opostos onde as estrelas, por mais que sejam as mesmas, nunca estaremos a olhá-las na mesma direção.
Se há maior loucura do que amar-te. Que o meu samba depende de ti para que batida seja a certa. Às vezes a maior loucura é saber que não é amor para doer assim. Não há cicatrizes que sarem porque não há golpe na pele. E quando doi a única mazela que faz é alterar o batimento cardíaco. Não há maior doer do que te ver. Reconheço o som dos teus sapatos e não há dia que não te reconheça o perfume no elevador. A tua voz é um baptismo de um sacrifício exímio e que só por isso não pode ser amor. O amor não nos anula e o que eu quero é pertencer-te, fazer parte do mesmo universo, criar-te estrelas e planetas e todos os dias mostrar-te que vivo neles por nós. Se não é amor que seja simplesmente dor para que tudo o que poderia ser felicidade não inclua no plano majestoso de que ser tua é um mundo.
Foi atabalhoado mas preciso. Do tempo entre a pista de dança, o elevador e a porta do quarto mais escuro da sala foram momentos que podiam ter levado à lucidez do não ser possível consumar o desejo. Mas de uma forma etéra essa lucidez ficou suspensa e esse tempo percorreu à velocidade da luz, sem espaço para que naquele quarto só coubessem os dois. Com a porta fechada a garantir a separação do presente para o passado onde as duas almas se andavam a procurar nas vidas passadas incompletas até agora, manifestou-se surpreendentemente numa ânsia apaziguadora de que a história é traçada pelo universo e que a plenitude será travada pelo que fica escrito no tempo. Não houve pressa no beijo – o primeiro. Numa constante negação de que este presente não é ainda aquele os vai ficar a pertencer-lhes para sempre. Ambos sabem que este ainda não é o nirvana que os fará estarem completos, é uma das passagens para que saibam que se pertencem mas que não se vão encontrar ainda.
Ela encostou-se à porta fechada e inalou o fumo do cigarro – que era o que ele lhe dera na pista depois de o acender nos seus lábios, iluminando os seus olhos cravados nos dela. Ela travou o fumo. na garganta como que a manter o momento suspenso. Semicerrou os olhos, via os dele brilharem pela obscuridade abundante da sala. Via-lhe os contornos do rosto e apostava no seu meio sorriso que conhecia de cor. Expirou o fumo ao mesmo tempo que ele se aproximava dando o mote de que o tempo recomeçara a contar à velocidade alucinante que sabiam que os faria perderem-se novamente.
O amor não chega para contarmos as vidas que temos dentro de nós. As pessoas que conhecemos já passaram por nós noutros passados e todas elas têm um propósito para nos fazerem parte novamente. Ás vezes são uma redenção, uma maldição, um ajuste de contas. As melhores são a confirmação do que o  universo deixou ficar por concretizar para que na altura as almas que se procuram eternamente, se encontrem completas.
Ela detestava o negro da mesma forma que detesta a luz – as tonalidades que se conseguem nas misturas das dicotomias extremas são mais românticas, menos agressivas e mais profundas: dependem do que queres que vejam. Ela sabia jogar estas peças de acordo com as várias perspetivas que escrutinavam a sua presença. E às vezes as suas ausências.
Ninguem lhe disse que podia ser quem ela quisesse, mas desde cedo soube que para ser quem queria, teria de ser quem os outros precisavam de ver. E foi nesta ambiguidade do Outro que ela se perdeu e se tornou – os Outros.

Sabes que ela nunca ter escrito sobre ti diz mais sobre ti do que sobre ela. Tem a ver com o cosmos e o alinhamento das estrelas. Se não a fazes estar à beira do precipício não há sobre o que escrever – sabias que o amor só vale a pena quando doi e que ela só escreve quando se apaixona ou quando se desilude? Sabes aquela história das coincidências? Se olhares com cuidado reparas que os dias são maiores e que ela procura sempre os lugares com sol – se nunca te sentaste com ela a partilhar o tempo como podes achar que tens o pó da mesma estrela em ti? Se de hoje a um ano não fizeres parte dos satélites dela e ela nunca escreveu sobre ti como poderás ter sido parte do mesmo céu? Não é que não faças parte da história, simplesmente não fazes parte Dela.

Dizem que não se pergunta a idade a uma mulher mas Ela leu num dos seus escritores preferidos que a mulher que não tem medo de dizer a sua idade é a mais destemida. Desde essa altura que não tem medo de contar os seus anos, mesmo que não saiba lidar com eles.  Tem vinte e sete. Tem olhos curiosos e muitas perguntas que sempre a fizeram uma pessoa desconfortável para quem não gosta de responder a porquês. Gosta de se proteger dando-se a conhecer primeiro e apenas com aquilo que quer. Mede pelos dedos os amores que teve na vida e há muito que deixou de contar os beijos que deu a desconhecidos. Diz que é pelo beijo que reconhece as almas e que poucas são as que se cruzaram com a dela. Não gosta de magia e por isso detesta truques de ilusionismo – nunca gostou de pessoas que desaparecem. Gosta de acreditar em algumas ciências duvidosas que lê em artigos de revistas. Por exemplo, de que as nossas células se substituem totalmente de 7 em 7 anos e que isso implica que daqui a 7 anos será como se tu nunca lhe tivesses tocado. É uma dramática dentro do optimismo sombrio: não é que não acredite em finais felizes, simplesmente não lhe acontecem a Ela.

Gosto muito de novos começos. Pode parecer uma redundância: o “novos” e os “começos”, mas a intenção é mesmo essa. Não por os começos serem sempre novos, mas porque são sempre uma oportunidade de sermos novamente quem gostávamos de ter sido. Dizem que as pessoas só se apaixonam quando ainda não se conhecem e eu reforço que é por isso que se apaixonam: porque podem imaginar o que quiserem que a outra pessoa seja. Podemos querer que ela seja o que nos faltou. Ou o que achamos que nos faz feliz. Ou o que achamos que falta a essa pessoa. Ela não passa, por isso mesmo, de uma representação de nós mesmos. Ou seja, apaixonamo-nos pelo que somos. Pelo que achamos que somos. Pelo que achamos que nos falta. Ou pelo que gostávamos de ser?
Entrei devagar e em bicos de pés para não te acordar ainda mais. Tinha vestido uma roupa à pressa para chegar e vestir logo o teu pijama. Era muito cedo e quando entrei estavas na cama embrulhado nos lençóis e com o quarto às escuras. Debrucei-me em ti e puxaste-me para o teu abraço. Quando nos apaixonamos todos os clichés são verdades incontestáveis e nunca duvidei que o teu abraço fosse o melhor lugar do mundo. De todas as verdades incontestáveis que me disseste as que mais gostei foram as que me dizias ao ouvido. Até quando me cantavas a nossa música. Quando cantámos os dois, era madrugada e vínhamos da discoteca e antes de nos despedirmos cantámos um para o outro a música que nos chamava loucos. E todas as noites em que tocava à tua porta e a encontrava já aberta  eram noites ganhas em saber que me esperavas. Era noite cerrada e a discoteca tingia-nos de cores azuladas, arroxeadas e em sombras enigmáticas quando me leste os lábios a dizer que te amava e me apertaste contra o teu peito. Não havia lugar mais certo do que o teu abraço. Também nunca esqueci as noites em que adormeci no teu sofá e acordei contigo a tirar-me os óculos e pousá-los longe enquanto te embalavas no meu corpo e, invariavelmente, deixavamos os filmes a meio. Ou quando me ligavas, me procuravas e querias estar comigo e me dizias as mais bonitas verdades. Sabes aquela história das galáxias e de nos pertencermos intemporalmente por fazermos parte da mesma estrela? Se calhar estamos no universo errado. Ou então só nos resto o pó de estrelas que nos pertence. Gostava de ter vivido isto sendo o ela foi para ti. A maior tristeza é ter vivido tudo contigo sem tu o teres feito comigo. Gostava de ser ela para que fosse eu quem não quisesses deixar partir.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Há um lugar em nós onde não gostamos de ir. É, por norma, um lugar escuro, um recanto qualquer que se acomoda entre as costelas, os pulmões e o coração. Digo isto porque quando lá vamos sufoca-nos a respiração e nos aperta o coração, parece até que ele estrangula na circulação do sangue a bombear descompassado. Não sei como se chama esse lugar, mas é um lugar de infinitas possibilidades e de respostas, das mais negras e puras que podemos encontrar. Acho que é o local das verdades que já sabemos mas temos medo de as confrontar. Quando lá vamos sabemos que, inquestionavelmente não haverá retorno. Uma espécie de catarse, sem ser bem uma apoteose. A última vez que lá tinha ido foi quando me perguntei se te devia beijar naquela noite, no teu sofá branco. A resposta pareceu-me clara, luminosa e inquestionável. Sabes aquela história das coincidências?

Somos pó da mesma estrela e sei que nos pertencemos para além do universo. O tempo aqui não existe porque a nossa intemporalidade persegue-nos para além da existência. Sinto isso na forma como nos alinhamos na respiração, no olhar sereno que em que pousamos a profundidade do que temos em comum. É isto que significa quando dizes que tenho os olhos grandes e que entram dentro de ti. São metades de ti que se encontram na linha ténue do reconhecimento. E por isso a ferida não sara e o tempo não cura, porque ele existe em nós para além da matéria, da mesma forma que os átomos em que nos movimentamos em ondas sonoras nos chegam em bonitas palavras de amor. Eu vejo como olhas para mim. A comunicação que criamos nessa forma vai para além do espaço em que existimos. E é por isso que os porquês doem – obrigam-nos a crescer nas respostas que temos medo de dar ao outro. Não se pode dar um nome a um universo novo, mas podemos criar as nossas constelações e saber que este tempo nos deu um alinhamento cósmico.  Porque se partires levas metade de ti e de mim, em estrelas desfragmentadas.