Foi atabalhoado mas preciso. Do tempo entre a pista de dança, o elevador e a porta do quarto mais escuro da sala foram momentos que podiam ter levado à lucidez do não ser possível consumar o desejo. Mas de uma forma etéra essa lucidez ficou suspensa e esse tempo percorreu à velocidade da luz, sem espaço para que naquele quarto só coubessem os dois. Com a porta fechada a garantir a separação do presente para o passado onde as duas almas se andavam a procurar nas vidas passadas incompletas até agora, manifestou-se surpreendentemente numa ânsia apaziguadora de que a história é traçada pelo universo e que a plenitude será travada pelo que fica escrito no tempo. Não houve pressa no beijo – o primeiro. Numa constante negação de que este presente não é ainda aquele os vai ficar a pertencer-lhes para sempre. Ambos sabem que este ainda não é o nirvana que os fará estarem completos, é uma das passagens para que saibam que se pertencem mas que não se vão encontrar ainda.
Ela encostou-se à porta fechada e inalou o fumo do cigarro – que era o que ele lhe dera na pista depois de o acender nos seus lábios, iluminando os seus olhos cravados nos dela. Ela travou o fumo. na garganta como que a manter o momento suspenso. Semicerrou os olhos, via os dele brilharem pela obscuridade abundante da sala. Via-lhe os contornos do rosto e apostava no seu meio sorriso que conhecia de cor. Expirou o fumo ao mesmo tempo que ele se aproximava dando o mote de que o tempo recomeçara a contar à velocidade alucinante que sabiam que os faria perderem-se novamente.
O amor não chega para contarmos as vidas que temos dentro de nós. As pessoas que conhecemos já passaram por nós noutros passados e todas elas têm um propósito para nos fazerem parte novamente. Ás vezes são uma redenção, uma maldição, um ajuste de contas. As melhores são a confirmação do que o  universo deixou ficar por concretizar para que na altura as almas que se procuram eternamente, se encontrem completas.
Ela detestava o negro da mesma forma que detesta a luz – as tonalidades que se conseguem nas misturas das dicotomias extremas são mais românticas, menos agressivas e mais profundas: dependem do que queres que vejam. Ela sabia jogar estas peças de acordo com as várias perspetivas que escrutinavam a sua presença. E às vezes as suas ausências.
Ninguem lhe disse que podia ser quem ela quisesse, mas desde cedo soube que para ser quem queria, teria de ser quem os outros precisavam de ver. E foi nesta ambiguidade do Outro que ela se perdeu e se tornou – os Outros.

Sabes que ela nunca ter escrito sobre ti diz mais sobre ti do que sobre ela. Tem a ver com o cosmos e o alinhamento das estrelas. Se não a fazes estar à beira do precipício não há sobre o que escrever – sabias que o amor só vale a pena quando doi e que ela só escreve quando se apaixona ou quando se desilude? Sabes aquela história das coincidências? Se olhares com cuidado reparas que os dias são maiores e que ela procura sempre os lugares com sol – se nunca te sentaste com ela a partilhar o tempo como podes achar que tens o pó da mesma estrela em ti? Se de hoje a um ano não fizeres parte dos satélites dela e ela nunca escreveu sobre ti como poderás ter sido parte do mesmo céu? Não é que não faças parte da história, simplesmente não fazes parte Dela.

Dizem que não se pergunta a idade a uma mulher mas Ela leu num dos seus escritores preferidos que a mulher que não tem medo de dizer a sua idade é a mais destemida. Desde essa altura que não tem medo de contar os seus anos, mesmo que não saiba lidar com eles.  Tem vinte e sete. Tem olhos curiosos e muitas perguntas que sempre a fizeram uma pessoa desconfortável para quem não gosta de responder a porquês. Gosta de se proteger dando-se a conhecer primeiro e apenas com aquilo que quer. Mede pelos dedos os amores que teve na vida e há muito que deixou de contar os beijos que deu a desconhecidos. Diz que é pelo beijo que reconhece as almas e que poucas são as que se cruzaram com a dela. Não gosta de magia e por isso detesta truques de ilusionismo – nunca gostou de pessoas que desaparecem. Gosta de acreditar em algumas ciências duvidosas que lê em artigos de revistas. Por exemplo, de que as nossas células se substituem totalmente de 7 em 7 anos e que isso implica que daqui a 7 anos será como se tu nunca lhe tivesses tocado. É uma dramática dentro do optimismo sombrio: não é que não acredite em finais felizes, simplesmente não lhe acontecem a Ela.

Gosto muito de novos começos. Pode parecer uma redundância: o “novos” e os “começos”, mas a intenção é mesmo essa. Não por os começos serem sempre novos, mas porque são sempre uma oportunidade de sermos novamente quem gostávamos de ter sido. Dizem que as pessoas só se apaixonam quando ainda não se conhecem e eu reforço que é por isso que se apaixonam: porque podem imaginar o que quiserem que a outra pessoa seja. Podemos querer que ela seja o que nos faltou. Ou o que achamos que nos faz feliz. Ou o que achamos que falta a essa pessoa. Ela não passa, por isso mesmo, de uma representação de nós mesmos. Ou seja, apaixonamo-nos pelo que somos. Pelo que achamos que somos. Pelo que achamos que nos falta. Ou pelo que gostávamos de ser?
Entrei devagar e em bicos de pés para não te acordar ainda mais. Tinha vestido uma roupa à pressa para chegar e vestir logo o teu pijama. Era muito cedo e quando entrei estavas na cama embrulhado nos lençóis e com o quarto às escuras. Debrucei-me em ti e puxaste-me para o teu abraço. Quando nos apaixonamos todos os clichés são verdades incontestáveis e nunca duvidei que o teu abraço fosse o melhor lugar do mundo. De todas as verdades incontestáveis que me disseste as que mais gostei foram as que me dizias ao ouvido. Até quando me cantavas a nossa música. Quando cantámos os dois, era madrugada e vínhamos da discoteca e antes de nos despedirmos cantámos um para o outro a música que nos chamava loucos. E todas as noites em que tocava à tua porta e a encontrava já aberta  eram noites ganhas em saber que me esperavas. Era noite cerrada e a discoteca tingia-nos de cores azuladas, arroxeadas e em sombras enigmáticas quando me leste os lábios a dizer que te amava e me apertaste contra o teu peito. Não havia lugar mais certo do que o teu abraço. Também nunca esqueci as noites em que adormeci no teu sofá e acordei contigo a tirar-me os óculos e pousá-los longe enquanto te embalavas no meu corpo e, invariavelmente, deixavamos os filmes a meio. Ou quando me ligavas, me procuravas e querias estar comigo e me dizias as mais bonitas verdades. Sabes aquela história das galáxias e de nos pertencermos intemporalmente por fazermos parte da mesma estrela? Se calhar estamos no universo errado. Ou então só nos resto o pó de estrelas que nos pertence. Gostava de ter vivido isto sendo o ela foi para ti. A maior tristeza é ter vivido tudo contigo sem tu o teres feito comigo. Gostava de ser ela para que fosse eu quem não quisesses deixar partir.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
Há um lugar em nós onde não gostamos de ir. É, por norma, um lugar escuro, um recanto qualquer que se acomoda entre as costelas, os pulmões e o coração. Digo isto porque quando lá vamos sufoca-nos a respiração e nos aperta o coração, parece até que ele estrangula na circulação do sangue a bombear descompassado. Não sei como se chama esse lugar, mas é um lugar de infinitas possibilidades e de respostas, das mais negras e puras que podemos encontrar. Acho que é o local das verdades que já sabemos mas temos medo de as confrontar. Quando lá vamos sabemos que, inquestionavelmente não haverá retorno. Uma espécie de catarse, sem ser bem uma apoteose. A última vez que lá tinha ido foi quando me perguntei se te devia beijar naquela noite, no teu sofá branco. A resposta pareceu-me clara, luminosa e inquestionável. Sabes aquela história das coincidências?

Somos pó da mesma estrela e sei que nos pertencemos para além do universo. O tempo aqui não existe porque a nossa intemporalidade persegue-nos para além da existência. Sinto isso na forma como nos alinhamos na respiração, no olhar sereno que em que pousamos a profundidade do que temos em comum. É isto que significa quando dizes que tenho os olhos grandes e que entram dentro de ti. São metades de ti que se encontram na linha ténue do reconhecimento. E por isso a ferida não sara e o tempo não cura, porque ele existe em nós para além da matéria, da mesma forma que os átomos em que nos movimentamos em ondas sonoras nos chegam em bonitas palavras de amor. Eu vejo como olhas para mim. A comunicação que criamos nessa forma vai para além do espaço em que existimos. E é por isso que os porquês doem – obrigam-nos a crescer nas respostas que temos medo de dar ao outro. Não se pode dar um nome a um universo novo, mas podemos criar as nossas constelações e saber que este tempo nos deu um alinhamento cósmico.  Porque se partires levas metade de ti e de mim, em estrelas desfragmentadas.